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Há sítios no mundo que são como certas existência humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este gerês é um deles.

Miguel Torga, Diario VII

 

Os trilhos na senda de Miguel Torga  deixaram-nos curiosos mas a palavra Calcedónia  no baptizado do Vi marcou a decisão de irmos. A S. nunca foi ao Gerês propriamente dito. No Domingo chove. Não faz mal. Vamos na mesma.

 

Começamos em Melgaço. Ficamos aqui e só tivemos boas surpresas: vila raiana [:que ou o que nasceu ou mora na arraia (fronteira)] com tanto de pacata como de histórias para contar. Nós, ouvimos todas com atenção:

 

parque de campismo termas de Melgaço - bungalows

balneários termais de Melgaço

termas de Melgaço

castelo de Melgaço - torre de menagem

Mandada edificar por Dom Afonso Henriques no século XII/XIII, deste antigo castelo resta-nos apenas uma torre de menagem e parte da antiga cerca da Vila medieval. Oferece-nos soberbas vistas sobre as serras vizinhas e sobre o centro histórico da Vila, com as suas ruas estreitas e as casas em pedra. Edificado para reforçar a autoridade do recém-criado reino de Portugal, este castelo teve um importante papel na defesa da fronteira do Alto Minho.
É na torre quadrangular que, actualmente, podemos encontrar o Núcleo Museológico da Torre de Menagem onde podemos conhecer um pouco sobre o património arquitectónico, histórico e cultural de Melgaço. 

Núcleo Museológico da Torre de Menagem.jpg

Ruínas Arqueológicas da Praça da República

Descemos uma escada e é debaixo de terra que atravessamos os restos da antiga fortaleza. O cartaz informativo permite-nos perceber as ruínas e o sistema defensivo da cidade medieval. 

Ruínas Arqueológicas da Praça da República

Espaço Memória e Fronteira

Inserido no antigo edifício do matadouro municipal, este museu tem como temática a história contemporânea do concelho, com ênfase na emigração e no contrabando. Percorrendo as suas salas, ingressamos no mundo da emigração ilegal dos anos 60 e 70, conhecendo todos os momentos, desde as causas, a preparação da viagem e a viagem em si, até ao chegada e vivência no país de acolhimento. Um perfeito retrato social das centenas de filhos da terra que Melgaço viu partir, não esquecendo os reflexos deste êxodo no concelho. É aqui também feito um retrato do contrabando que fez viver na clandestinidade tantos melgacences. Destacamos os testemunhos reais documentados que nos transportam para a época em que se ia “a salto” para o estrangeiro. Um museu feito de memórias de pessoas reais.
Museu do Cinema

Solar do Alvarinho

Convento de Fiães

  1.png

 

O próximo destino seria Castro Laboreiro, mas perdemos-nos com os encantos de Lamas de Mouro. Decidimos ficar um pouco e beber toda a beleza que nos é oferecida pela ruralidade na sua forma mais pura.  Ele é pontes de pedra que não conseguimos datar, moinhos de água, um relógio de sol e um forno comunitário, e depois toda uma palete de cores de Outono que se ajoelha à imponência da majestosa rocha. A cereja no topo do bolo foram os garranos,  as vacas cachena e os bois barrosão que teimavam em nos fazer companhia. 

Era afinal o Trilho Interpretativo de Lamas de Mouro que recomendamos ferozmente. Trata-se de um percurso de pequena rota de trajecto circular com cerca de 4,5 quilómetros de extensão onde podemos apreciar a bela paisagem rural de Lamas de Mouro, assim como os seus valores naturais e etnográficos.

Lamas de Mouro - pastorícia

vaca cachena

garranos

cores do Outono

  

Chegados a Castro Laboreiro o feitiço não desvanece. Continuamos empenhados em ver e descobrir mais. Nada melhor do que começar pelo castelo. Para lá chegar, o caminho não é fácil, temos de subir a pé, até aos 1033 metros de altitude. Mas quando lá chegamos, esquecemos todo o caminho que ficou para trás, tal a beleza e imponência do que nos rodeia. Da antiga fortificação medieval em ruínas, conseguimos descortinar restos das muralhas, a torre de menagem e uma velha cisterna. 

castelo de Castro Laboreiro

castelo de Castro Laboreiro

O castelo é só o início, ele são inúmeras pontes sob o rio Laboreiro que corre forte em direcção ao Lima, são mais de uma centena de antas ou dólmenes, alguns menires, a Cremadoura onde se incineravam os cadáveres para serem recolhidas as cinzas em vasilhames de barro (no Mesolítico), doze castros, pinturas e gravuras rupestres. Sinais das civilizações que por ali passaram desde há cinco mil anos.

 

ponte castro laboreiro.jpg

 

Com estas gentes aprendemos uma tradição que ainda persiste: as brandas e inverneiras. Em meados de Dezembro, com a chegada do frio e dos nevões, as populações de Castro Laboreiro pegam nas suas roupas, utensílios caseiros e de lavoura e “tangendo o gado, migram em massa para os vales, onde possuem uma segunda casa e uma segunda aldeia.”. E ficam nas Inverneira, abrigados do frio, até meados de Março. Por altura da Páscoa regressam à Branda.

 

“Deve-se encher os olhos da mesma paisagem tantas vezes quantas forem necessárias para que ela seja dentro de nós um cenário quotidiano. Só assim cada acidente dela, animal, vegetal ou mineral, terá nos sentidos aquela morada íntima, inefável, onde de vez em quando a nossa própria alma é conviva. Imagens que nos lembrem sem querer, como trechos de Bach ou de Beethoven, e que encham a nossa solidão pela vida fora.

Miguel Torga, Diário V 

 

Continuamos o nosso caminho e descemos em direcção ao Santuário da Nossa Senhora da Peneda. Oportunidade para agradecer estarmos juntos, estarmos ali. Agradecer por tudo, por sermos felizes, por sermos saudáveis, por podermos faltar à escola para partir numa aventura! :) 

Santuário da Nossa Senhora da Peneda

Santuário Nossa Senhora da Peneda

Santuário da Nossa Senhora da Peneda

 

Conta-se que a Senhora da Peneda apareceu em cinco de Agosto de 1220 a uma serraninha que pastoreava por entre aquelas penedias, algumas cabras. A Senhora apareceu-lhe em forma de uma pomba branca voando ao redor dela e, pediu-lhe que dissesse aos do seu lugar da Gavieira para lhe edificarem naquele lugar uma ermida; a pastorinha falou aos seus pais, da Senhora, mas sem efeito, porque não lhe deu crédito. 

Noutro dia, voltando a pastorinha com as suas cabras por aquelas mesmas paragens, lhe tornou a aparecer a mesma Senhora na mesma lapa, não como na primeira vez, em forma de pomba (como ela referia) mas na forma em que hoje se vê, e lhe disse: filha, já que te não querem dar crédito ao que eu mando, vai ao lugar de Roussas (que fica na mesma freguesia de Gavieira, no mesmo termo do concelho de Soajo) onde está uma mulher entrevada há dezoito anos e diz aos moradores do lugar que tragam à minha presença, para que ela fique de perfeita saúde, e assim te darão crédito ao que eu te ordeno. Assim o fez a venturosa pastorinha, e trouxe a mulher que se chamava Domingas Gregório. Tanto que esta chegou à vista daquela Sagrada Imagem da Rainha dos Anjos, logo alcançou uma perfeita saúde e ficou livre e sã de todos os males que padecia, louvando a Virgem Senhora pelo singular benefício que lhe havia feito.

 

E finalmente os espigueiros! Já tínhamos visitado o Soajo mas Lindoso tem também um castelo o que o tornava mais apetecível. Com funções defensivas importantes pela sua proximidade com a fronteira torna-se parte de um conto de príncipes e princesas ladeado por cinquenta espigueiros de pedra de rara beleza.

castelo do Lindoso

Espigueiro do Lindoso

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A Serra Amarela é um dos ermos mais perfeitos de Portugal. Situada entre o Gerês e o Lindoso, as suas dobras são largas, fundas e solenes. Sem capelas e sem romarias, cruzam-na os lobos, os javalis e as corças. A praga dos pinheiros oficiais ainda lá não chegou. De maneira que mora nela o sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis. Não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores. É Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica. Um pé de azevinho aqui, urzes milenárias acolá, um carvalho numa garganta, nenhum coração de entre o Douro e Minho pode deixar de se sentir aquecido e reconfortado em semelhante chão.

Serra Amarela e aldeia de Brufe

Iniciamos a descida da Serra Amarela, passamos por Ermida, Germil e Brufe, e esta última aldeia revelou-se um segredo muito bem guardado. Toda em granito harmoniza perfeitamente com a serra e as cores do Outono. Visitem que vale a pena! Valeu-nos Brufe porque Vilarinho das Furnas e a sua aldeia submersa pela barragem não aconteceu. A expectativa era grande mas a chuva não deu tréguas e resolvemos não nos aventurar. Mais tarde, no posto de turismo apercebemo-nos que fizemos bem: as ruínas não se vêm à cerca de sete anos devido à barragem...

aldeia submersa de Vilarinho das Furnas

 

Requiem
Viam a luz nas palhas de um curral,
Criavam-se na serra a guardar gado.
À rabiça do arado,
A perseguir a sombra nas lavras,
Aprendiam a ler
O alfabeto do suor honrado.
Até que se cansavam
De tudo o que sabiam,
E, gratos, recebiam
Sete palmos de paz num cemitério
E visitas e flores no dia de finados.
Mas, de repente, um muro de cimento
Interrompeu o canto
De um rio que corria
Nos ouvidos de todos.
E um Letes de silêncio represado
Cobre de esquecimento
Esse mundo sagrado
Onde a vida era um rito demorado
E a morte um segundo nascimento.
Miguel Torga
Barragem de Vilarinho da Furna
18 de Julho de 1976

  

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São Bentinho da Porta Aberta

São Bentinho da Porta Aberta já era nosso conhecido de outras andanças, resolvemos continuar e conhecer o Gerês propriamente dito. 

 

parte II 

 

 

 

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